Casa Artigos Científicos VISÃO DE UMA PROFESSORA NA CONTEMPORANEIDADE: SUAS PRÁTICAS E ANSEIOS PEDAGÓGICOS

VISÃO DE UMA PROFESSORA NA CONTEMPORANEIDADE: SUAS PRÁTICAS E ANSEIOS PEDAGÓGICOS

por Moises da Silva

VISÃO DE UMA PROFESSORA NA CONTEMPORANEIDADE: SUAS PRÁTICAS E ANSEIOS PEDAGÓGICOS
Moisés da Silva *
Marcio Kalikrates Stanojev Pereira *

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RESUMO

O presente artigo aborda as práticas e anseios de uma professora na contemporaneidade, considerando sua função de formadora de opinião e o a conjuntura sociopolítico atual. O estudo iniciou-se por meio de questionamentos propostos em um grupo de estudos em Educação e foi objetivado com a aplicação de entrevista narrativa semiestruturada realizada com uma professora que trabalha na rede de ensino privado há vinte anos e leciona há vinte e três anos em escolas públicas estaduais da Região de Andradina, interior do Estado de São Paulo para crianças de classes baixa e média-baixa. Por meio da entrevista, a professora relata suas condições de trabalho, modelo de ensino, carga horária, planejamento, dificuldades sociais e estruturais enfrentadas em seu dia-a-dia nas unidades escolares. Com base em literaturas cujos autores abordam o papel do professor na sociedade contemporânea para a construção da nova escola – e abordam as principais inquietações que são a fonte desta investigação, dando relevância a temática para o âmbito educacional. Diante do exposto, pretende-se identificar as dificuldades sociais e estruturais enfrentadas pela professora em sala de aula a fim de compreender o novo cenário educacional em constantes mudanças, motivadas pela dinamicidade da sociedade contemporânea. Com essas abordagens, nota-se que o professor é sujeito ora agente ora paciente e também submisso pelo contexto em que atua, tendo que enfrentar os desafios do ambiente escolar e as cobranças de resultados pela sociedade que determina o novo perfil do professor com capacidade de ser flexível e criativo para adaptar-se às mudanças constantes no ambiente escolar. Compreende-se então que é preciso garantir um trabalho reflexivo sobre as práticas que permeiam a profissão docente e que dão sustentação técnico pedagógica ao processo de ensino.

Palavras-Chave: : Papel do professor. Práticas. Desafios. Contemporaneidade.

A TEACHER’S VISION IN CONTEMPORANEITY: HER PRACTICES AND PEDAGOGICAL ANXIES
Moisés da Silva *
Marcio Kalikrates Stanojev Pereira *

ABSTRACT

This article addresses the practices and desires of a teacher in contemporary society, considering her role as an opinion maker and the current socio-political context. The study began with questions proposed in a group of studies in Education and was aimed at with the application of a semi-structured narrative interview conducted with a teacher who has worked in the private education network for twenty years and has taught for twenty-three years in schools public institutions in the Andradina Region, in the interior of the State of São Paulo, for children of low and medium-low classes. Through the interview, the teacher reports on her working conditions, teaching model, workload, planning, social and structural difficulties faced in her daily life in school units. Based on literature whose authors address the role of the teacher in contemporary society for the construction of the new school – and address the main concerns that are the source of this investigation, giving relevance to the theme for the educational scope. According to what was exposed, it is intended to identify the social and structural difficulties faced by the teacher in the classroom in order to understand the new educational scenario in constant change, motivated by the dynamism of contemporary society. With these approaches, it is noted that the teacher is sometimes an agent, sometimes patient, and also submissive by the context in which she works, having to face the challenges of the school environment and the demands for results by society that determines the new profile of the teacher with the ability to be flexible and creative to adapt to constant changes in the school environment. It is understood, then, that it is necessary to guarantee reflective work on the practices that permeate the teaching profession and that provide technical and pedagogical support to the teaching process.

Palavras-Chave: Teacher’s role. Practices. Challenges. Contemporary

INTRODUÇÃO

Considerando as mudanças pelas quais o professor passa na contemporaneidade, analisamos o novo papel do professor e o novo modelo de trabalho, advindos dos meios de comunicação, tecnologia e informação, os quais estabelecem novos desafios aos
docentes e à unidade escolar.
Sabe-se que o exercício da docência é tem como diretrizes muitos desafios contemplando a própria profissão, o quotidiano da
profissão docente, sua rotina com alunos e pais, a dimensão que ela ocupa e é circundada na sociedade contemporânea por meio do desenvolvimento educacional e social.
Este trabalho tem por objetivo fazer uma exposição opinativa sobre a formação continuada docente, parecer sobre a inclusão no sistema escolar, sonhos, frustrações e anseios de uma professora em relação à temática abordada e discussões observadas durante as aulas remotas conduzidas pelo professor Marcio Kalikrates Stanojev Pereira.
O escopo do presente trabalho teve três etapas. A primeira, a entrevista com 27 questões de carácter informativo, no que se refere à identidade e formação da docente entrevistada, e opinativo, concernente às respostas de carácter expositório pela docente em relação à sua prática, posicionamento político-educativo, sonhos socioeducativos, frustrações, anseios e visão sobre Inclusão e formação continuada; a segunda, leitura e transcrição das perguntas e as devidas colocações pela professora entrevistada. Terceiro, o momento que se seguiu à entrevista e à leitura das respostas, situação na qual o pesquisador esteve em condições de finalmente decidir o córpus sobre o qual trabalhará, a partir do conjunto de textos produzidos
Objetiva-se com esse trabalho mostrar o texto produzido em situação de entrevista no contexto de pesquisas em ciências humanas e sociais tratando a entrevista como dispositivo de produção de textos a partir de uma ótica discursiva – produção situada social e historicamente, como prática linguageira que se define por uma dada configuração enunciativa que a singulariza durante esse processo de enunciação. Dentre os fatores que justificam a escolha do foco na temática, citamos uma dupla ordem de argumentos: por um lado, a urgência de um trabalho usando a entrevista; por outro lado, e de modo intimamente relacionado ao item anterior, a relevância de um enfoque que explicite a complexidade das visões e posicionamento de uma professora com múltipla formação e atuante em uma das redes escolares da educação brasileira na cidade de Andradina, interior do Estado de São Paulo.

O Professor e o cenário contemporâneo de sua atuação

Diante da atual conjuntura social pela qual o mundo passa com múltiplas transformações em todas as esferas que compõem o alicerce da sociedade contemporânea, o papel do professor deveras mudou também bem como a importância do professor na ressignificação de uma escola. Segundo Gauthier (1996) apud Tardif (2011,p. 147) “Em nossas organizações escolares, o professor não exerce influência direta sobre as finalidades da educação… Contudo, ele pode controlar os meios, isto é, o ensino.”
Sabe-se que os docentes são profissionais essenciais na construção da nova escola, porquanto “os professores contribuem com seus saberes, seus valores e suas competências nessa complexa tarefa” (PIMENTA, 2005, p.07). A contribuição docente é de suma importância para a mobilização de todo o sistema educacional, em concordância legal com as necessidades e exigências das demandas públicas e sociais adaptadas ao contexto atual.
Na contemporaneidade, as sementes de uma revolução educacional de transformação impactante está sendo plantada. Percebe-se o cenário atual da pandemia do novo Corona vírus, causador da mais catastrófica enfermidade das últimas décadas acelerou o processo da digitalização em todas as escolas nacionais, tanto públicas municipais, estaduais e federais quanto da rede particular, bem como a adoção imediata de novas metodologias de ensino tal qual o ensino híbrido e o ensino remoto. Então, mediante esse cenário contextual de inúmeras mudanças, o papel do professor ressignificou abruptamente, não sendo mais os modelos tradicionais esperados por uma sociedade passiva, mas em concordância com os modelos dinâmicos da sociedade dinamizada pela revolução tecnológica. Assim, espera-se que o professor também possa e deva ser o grande agente de transformações sociais.
Nota-se que os desafios que surgem a todo instante no ambiente escolar e pela sociedade da contemporaneidade acabam instigando os docentes a refletirem sobre sua prática docente, seus métodos de trabalho, sua formação, seus anseios. Consoante Pimentel (apud MELLO, 2002, p.42)
“o professor precisa saber levantar hipóteses na realidade escolar. Precisa estudar mais, em função disso e produzir hipóteses novas que podem dar certo num dia e não mais em outro, porque os alunos se movimentam, o contexto social se movimenta, o professor também se dá conta disso, num mundo único, como o nosso”

Considerando a entrevista com a professora Sônia Rosa, ao ser inquirida sobre o olhar dela em relação ao processo ensino/aprendizagem na modalidade específica para a leciona, ela afirma que “o professor tem que garantir uma relação didática entre ensino e aprendizagem, tendo em mente a formação individual da personalidade do aluno, e (…), com um pensamento de heterogeneidade da sala de aula (…) O trabalho docente é parte integral do processo educativo aos quais os indivíduos são preparados para viver em sociedade, o educador deve formar alunos que sejam cidadãos ativos, reflexivos, críticos e participativos na sociedade em que vivem. A didática tem grande relevância no processo educativo de ensino e aprendizagem, pois ela auxilia o docente a desenvolver métodos que favoreça o desenvolvimento de habilidades cognoscitivas tornando mais fácil o processo de aprendizagem dos indivíduos.(…)”
Também é preciso considerar as que as mudanças ocorridas no papel da escola no novo cenário social demandam atualizações constantes no papel do professor. Tem-se a aprendizagem ativa, , experiencial, transformadora e empoderadora que se encontra mais proximal às necessidades do discente atual, a aprendizagem e o construtivismo inovadores e transformadores, com todos os potenciais trazidos pelo ambiente e pelas ferramentas digitais nas escolas os quais norteiam para novos papéis dos professores em uma educação que sofreu o contágio do que é chamado de quarta revolução industrial: a revolução tecnológica bem como o desenvolvimento da globalização
Diz-se a educação 4.0, por causa do conceito internet, análise de dados e utilização de dispositivos móveis. Assim esse novo modelo de educação é pormenorizado em quatro pilares principais, tais quais, o ensino deve refletir a realidade do aluno; a ciência e a tecnologia devem ser bases da educação; as competências dos alunos são levadas em consideração; e os espaços de aprendizagem devem ser criados e moldados de acordo com a tecnologia.
O novo modelo de educação apresenta vantagens para todos os partícipes diretos do processo educativo, uma vez que propõe que o conhecimento deva ser construído em conjunto, com a adesão maior de aulas práticas, de trabalhos em grupos; maior participação dos discentes em sala de aula, aproximação entre a vida do discente e o conteúdo estudando, gerando maior interesse por parte de todos, bem como melhor relacionamento entre discentes e docentes, maior aproveitamento de tempo para estudo e mais suportes técnicos aos docentes.
Considerando-se que, como a pandemia evidenciou, o aprendizado não se limita às paredes da sala de aula, mas se estende para todos os locais de vivência dos alunos. As informações não estão vinculadas apenas aos materiais didáticos tradicionais, elas estão disponíveis em qualquer lugar em bits e bytes. Além disso, os discentes atuais não são consumidores, senão criadores ativos de conhecimento, cabendo aos docentes e às escolas o papel de auxiliá-los nessa construção, permitido que o aprendizado aconteça, porquanto é projetado para atender às diversas e variáveis necessidades dos discentes a fim de permitir e garantir eu o aprendizado seja inclusivo e assertivo.
Portanto, pode-se afirmar que o campo de atuação das práticas do professor é que determina sua hierarquia socioeducativa, bem como normas e deveres, além das condicionantes ocasionadas pela própria gestão no quotidiano de sua função docente.
Compreende-se que as unidades escolares e os docentes não devem apenas preparem os discentes para os tradicionais exames internos, como provas, simulados e provas externas como vestibulares e concursos, mas para a vida e para o exercício da cidadania, fazendo dos discentes cidadãos ativos, criativos e inovadores.
Todas as circunstâncias de transição e variantes pelas quais passam a sociedade atual, exigem do docente a habilidade e a competência de saber interagir no meio social em que atua – a escola – os discentes – e a sociedade em si
Durante o processo de entrevista com a professora Sônia, foi-lhe perguntado sobre o que proporia diante das necessidades de mudanças ou transformações nos processos que envolvem a escola e os discentes e a mesma revelou-nos que “as relevantes modificações sofridas por nossa sociedade no decorrer do tempo, dentre elas o desenvolvimento tecnológico e o aprimoramento de novas maneiras de pensamento sobre o saber e sobre o processo pedagógico. Dessa forma, faz-se necessário à busca de uma nova reflexão no processo educativo, onde o agente escolar passe a vivenciar essas transformações de forma a beneficiar suas ações podendo buscar novas formas didáticas e metodológicas de promoção do processo ensino-aprendizagem com seu aluno, sem com isso ser colocado como mero expectador dos avanços estruturais de nossa sociedade, mas um instrumento de enfoque motivador desse processo.”
Ao tratar da concepção de professor reflexivo Alarcão (2003) a autora afirma que,
[…] a noção de professor reflexivo baseia-se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano criativo e não como mero reprodutor de idéias e práticas que lhe são exteriores. É central, nesta conceptualização, a noção do profissional como uma pessoa que, nas situações profissionais, tantas vezes incertas e imprevistas, actua de forma inteligente e flexível, situada a reactiva. (ALARCÃO, 2003, p. 41)
Deveras todos refletem sobre alguma coisa, porém apenas isso não faz do professor um profissional reflexivo, porquanto, como aponta Alarcão, a consciência de pensamento e reflexão não é um ato avulso tampouco um ato que deve acontecer em episódios. Há , sim, uma constante reinvenção e adaptação do professor para se acompanhar a dinamicidade desse cenário, uma vez que é no setor da educação que o docente é fundamental. Nesse contexto, ele precisa agir com coerência para chegar aos resultados, manter desempenho durante a execução do trabalho e interação com o seu corpo discente. Além disso, o docente necessita compreender quão central é o seu papel, sua missão, sua visão de mundo, seus princípios, valores e crenças, seus limites, seus critérios na tomada de decisões em meio a um cenário de constante transformações.
Sabe-se que o professor compreende que ele deve construir e proporcionar experiências educacionais significativas, que permitam aos discentes resolverem problemas do mundo real e que suas práticas pedagógicas devem se relacionar com o cotidiano dos discentes, que as atividades de aprendizado precisam envolver sua curiosidade natural e as avaliações evidenciarem realizações e fazer parte mais sinergicamente do aprendizado tornando-os mais responsáveis e protagonistas de seu próprio processo de aprendizagem .

Metodologia

Essa pesquisa foi realizada por meio da investigação qualitativa para a qual se utilizou de pesquisa bibliográfica com autores renomados e do estudo das práticas de pesquisa obtidas por entrevista. realizada com uma professora que tem mais de 20 anos de experiência no magistério em escolas públicas e privadas na cidade de Andradina e região.
Os relatos apresentados nesse artigo foram extraídos de entrevista narrativa semi-estruturada realizada no dia 16 de maio de 2021 com a professora Sônia Rosa, 48 anos de idade, natural de Sud Mennucci, interior do Estado de São Paulo, e residente em Andradina, há 31 anos
De acordo com Cunha (1989, p. 24) “a escola é uma instituição contextualizada, isto é, sua realidade, seus valores, sua configuração variam segundo as condições histórico-sociais que a envolvem”.
Assim para uma melhor compreensão das inquietações dispostas neste estudo, a entrevista realizada aborda questões relacionadas com o quotidiano da professora em sala de aula, seu método de ensino, a estrutura da escola, o perfil e família do seu alunado.

A experiência de uma professora

Por meio do relato da experiência de uma professora discorrido a seguir, busca-se, com este trabalho, analisar a narrativa da mesma.
A professora entrevistada Sônia Rosa é graduada em História Pelas UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, de Três Lagoas MS, com Habilitações em História. É Graduada em Pedagogia pelas FIU – Faculdades Integradas Urubupungá, Pereira Barreto, SP e é graduada em Artes, pela UNIMES – Universidade Metropolitana de Santos, SP, Pós graduada em psicopedagogia Institucional e Clínica.
Sônia é professora de História, Geografia e Artes, sendo que Artes trabalha com o Fund. I em Andradina, SP, e atua como Orientadora de estágio dos Cursos técnicos na Fundação Educacional de Andradina.
Leciona no período matutino, História para 6º ao 9ºanos, e Geografia para os 8º e 9º anos, e artes para os 1ºano e 2º anos do Fund I, este ano iniciou o trabalho de Geografia e História também com o 5º ano. No período noturno dou aula na faculdade FISMA, de realidade socioeconômica do Brasil. Atua também no período noturno como orientadora de estágio dos cursos técnicos em Mecatrônica, Química, Segurança do Trabalho e Eletrotécnica. Isso na rede privada onde está há 20 anos. Colégio Stella Maris – Sistema de Ensino Anglo, na Fundação Educacional de Andradina.
No Estado leciona do 6º ao 3º colegial, história e Geografia, como é categoria O, não escolhe, o que tiver ela pega e está na rede pública estadual há 23 anos.
É especialista, lato sensu, em História do Brasil pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, câmpus de Três Lagoas; pós-graduado pelas Faculdades Integradas Urubupungá, de Pereira Barreto, SP em Psicopedagogia Institucional, Psicopedagogia Clínica e em Serviço Social
Ao ser indagada sobre as experiências mais significativas que presenciou no campo da educação, a professora Sônia relatou que “toda relação é irrigada com afeto, sendo este o elemento fundamental das relações humanas. No processo educativo a relação professor e aluno é uma interação que dá sentido à aprendizagem. O docente precisa refletir em sua prática como anda essa relação. São inúmeras as experiências marcantes, mas a que mais me deixa com a sensação de dever cumprido é rever ex alunos que cita você como pessoa e suas aulas como referências ou ponto de partida para conduta cidadã e ética.”
Pode-se afirmar que nas relações permeadas pela afetividade, que são momentos sensitivos e envolventes, em que o ‘eu’ e o ‘outro’ interagem, vive-se o encontro de uma parceria de vida, de troca e de acolhimento e respeito pelo que fora vivido e aprendido até o momento. Brandão (2002, p.9), sustenta a tese de que “o saber é o que somos. Somos o saber que criamos e somos a experiência de partilharmos o saber a cada momento de nossas vidas”.
Assim o olhar o qual é dirigido para si e para o outro transcende a corriqueira forma racional de conceber os seres e os saberes, porquanto, como nos reportam Davis e Oliveira (1994, p.83-84)

“As emoções estão presentes quando se busca conhecer, quando se estabelece relações com objetos físicos, concepções de outros indivíduos. Afeto e cognição constituem aspectos inseparáveis, presentes em qualquer atividade, embora em proporções variáveis. A afetividade e a inteligência se estruturam nas ações e pelas ações dos indivíduos. O afeto pode, assim, ser entendido como uma energia necessária para que a estrutura cognitiva passe a operar. E mais: ele influencia a velocidade com que se constrói o conhecimento, pois quando as pessoas se sentem seguras, aprendem com mais facilidade.”

Sendo assim, pode-se dizer que o docente que compreende e valora a presença da afetividade nas relações de aprendizagem tem maiores possibilidades de tornar-se inesquecível aos seus alunos, seja pelos saberes que professa, seja pelo exemplo que é. Por isso, a prática pedagógica ganha com essa forma sapiente de conceber o ato educativo.
Quanto ao questionamento a respeito da sua experiência profissional sobre a realidade da inclusão escolar, a professora relata que “apesar do avanço político em relação à inclusão escolar, a situação vivida pelo país atualmente ainda está longe de ser a ideal. Hoje, várias crianças e jovens deficientes enfrentam enormes barreiras para conseguirem estudar. A falta de profissionais especializados e de acessibilidade na infraestrutura das escolas são algumas das principais dificuldades encontradas por esses alunos. Na verdade, às vezes quando estou em uma sala de aula com 25 ou 30 alunos, onde entre eles temos 4 com necessidades especiais e não consigo dar a atenção devida ao mesmos me sinto frustrada e impotente, e acho que ai sim esses alunos são excluídos e não incluídos.”
Assim, ao considerarmos a inclusão escolar, nas escolas comuns na rede regular de ensino tanto públicas quanto privadas, atribui novos e grandes desafios para o sistema educacional, e nas últimas décadas esse tema é um dos que mais incitam os professores, pais e comunidade a realizarem discussões a respeito de modificações que devem ser realizadas na escola.
Sabe-se que a inclusão é um movimento social crescente em vários países do mundo, abrangendo todos os segmentos da sociedade hodierna, evidenciando, assim, a sua amplitude. Para tanto, aas escolas regulares contribuem para o aprendizado, socialização, diminuição do preconceito e apreciação de todos pela diversidade humana (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994; BRASIL, 2002; BRASIL, 2003;). Assim, está caracterizada a educação inclusiva, isto é, o desenvolvimento educacional propiciado a todos sem que haja qualquer exclusão.
De acordo com Amiralian (2005, p. 61),
“o uso do termo inclusão na escola pode ser entendido como uma situação em que é imprescindível uma compreensão do aluno com deficiência, de modo que ele possa ser integrado, ou seja, passe a pertencer à escola e fazer parte integrante dela. Condição que assegurará a inteireza da escola, a completará e a transformará, então, em uma escola integrada/inclusiva.”

Ainda concernente à temática, foi questionado à professora sobre o que pode ser feito para envolver as famílias num trabalho voltado para a inclusão, e ela declarou que “em todos os sentidos, primeiro em manter a exclusão das pessoas, manter mitos e informações errôneas, isso chamamos de acessibilidade atitudinal, é a mais difícil porque exige que ressignifiquemos nossos valores, nossas relações, nossas crenças, enfim todos nós somos especiais e deficientes. O preconceito faz parte da natureza humana, desde o início da humanidade. O homem desconfia e tem medo de tudo o que é diferente dele mesmo, do “outro”. Para desmontar essa visão estereotipada principalmente da família montar um projeto pedagógico onde envolva a família conduzindo-os a perceber que somos iguais em nossas diferenças pode ser o caminho, claro que não irá exterminar tal visão por completo mas com certeza será o caminho para grandes melhorias.”
Convém ressaltar que a família constitui sempre o primeiro universo das relações sociais que a criança vai ter, com a possibilidade de lhe proporcionar um ambiente propício de crescimento e desenvolvimento, que se dá por meio das mais variadas relações de comunicação tanto de ordem verbal como também visual, e sincrética. Rey; Martinez (1989, p. 143) elucidam que a família representa, talvez, o modelo de relação mais complexa e de ação mais profunda sobre a personalidade humana, graças a enorme carga emocional das relações entre seus membros.
Em contrapartida, nota-se que a sociedade contemporânea ainda encontra dificuldades em incluir e aceitar igualmente aqueles que possuem algum tipo de deficiência. Em muitas situações a família é uma das principais reprodutoras dessa afirmativa de incapacidade. Percebe-se, portanto, que para o desenvolvimento e aprendizagem da criança, é necessário um convívio, uma ligação afetiva, entre pais e filhos. Essa ligação é chamada de vínculo, vital para todos os seres humanos. É uma necessidade inata de atenção e cuidado.
Sabe-se que a grande diversidade de deficiências traz muitos desafios para a escola e para os professores. Muitos argumentam que não estão preparados e que as escolas não têm condições para promover a inclusão dos alunos. Sobre essa temática, foi pedido à professora Sônia a opinião dela que declarou que “para um professor que está começando, eu diria que ele deve primeiramente buscar o máximo de informações acerca dos seus alunos com deficiência, e, então, traçar metas de trabalho com este indivíduo, questionando: o que esses alunos conseguem fazer? Quais são suas habilidades? Quais são os desafios e objetivos a serem alcançados? O que eles conseguiram superar hoje? E, acima de tudo, confiar e acreditar que ele é tão capaz quanto os demais”.
Assim, percebe-se que as transformações do mundo contemporâneo vêm ocasionando sobre todos os profissionais da educação, sobretudo o professor regente de sala ou de aula, uma gama muito grande de funções que vão além de sua formação acadêmica. Exigem-se condições objetivas em uma sociedade educacional diversificada e inclusiva, cujos nexos da formação não condizem com a realidade vivenciada no quotidiano escolar. É notório que a prática educativa acadêmica visa a uma formação constituída de valores, de conceitos e de declarações operacionais e intencionais e é esperado de um novo graduado em licenciatura, um cidadão competente, moderno, revolucionário, reflexivo e inquestionável na sua escolha enquanto professor. Nesse percurso ideológico, tem-se o ambiente escolar que conclama por um profissional qualificado para o novo cenário socioeducacional. Por conseguinte, surgem ações contraditórias para o novo professor, fazendo-o a refletir sobre sua formação durante a graduação. A fim de ilustrar essa situação, Ferreira (1998, pág. 104), declara que
“É num tempo como esse que nós, educadores e educadoras, nos vemos moralmente obrigados, mais do que nunca, a fazer perguntas cruciais e vitais sobre o nosso trabalho e nossas responsabilidades, a fim de respondê-las com propostas e ações coerentes e eficazes. É num tempo como esse que nós, administradores da educação, nos vemos moralmente desafiados a responder de forma competente aos reclamos da sociedade contemporânea com decisões firmes e ousadas, comprometidas com a formação humana do cidadão brasileiro e da cidadã brasileira. Do/a profissional da educação.”

Seguindo esse pensamento, a argumentação e as inquietações estão presentes na educação especial inclusiva, porquanto os professores novos ou mais experientes que se deparam com um discente incluso não se consideram preparados ou por se aprisionarem aos saberes acadêmicos restritos e descontextualizados ou por inoperância devido a essa formação desconexa com o mundo externo à sala de aula. Diante desse cenário contemporâneo, cujo ambiente é de insegurança gerada pela incapacidade técnico-pedagógica em delimitar questões pertinentes às novas circunstâncias, ampliação de suas possibilidades cognitivas enquanto docentes a fim de propiciar um atendimento educacional especializado no que se refere ao conteúdo do componente curricular de sua formação acadêmica esses professores se veem perdidos e acabam mitificando o velho discurso comum aos que são também resistentes à inclusão.

CONCLUSÃO
A leitura, análise das assertivas que desenvolvemos com este trabalho – reflexão certamente inicial e que exige desdobramentos – voltou-se para a necessidade de repensar o lugar da entrevista considerada como dispositivo enunciativo de produção textual e de acesso a uma dada ordem de saberes, dispositivo que impulsiona os sujeitos a produzirem textos opinativos orais ou escritos de forma mais espontânea com uma concepção de textos produzidos em interações que o dispositivo entrevista permite atualizar.
A pesquisa realizada permitiu-nos refletir a respeito das mudanças do papel fundamental do professor diante do novo cenário circunstanciado por constantes transformações e suas relações no quotidiano, estabelecendo entre o saber ser, saber pensar e saber agir uma nova práxis educativa.
Assim, a aceitação e a compreensão do novo quotidiano enfrentados pelos professores mostram que esse profissional precisa demonstrar flexibilidade e criatividade a fim de que venha a se adaptar ao dinâmico cenário socioeducacional e consiga superar suas limitações de ordem acadêmica e passe a lidar com as alterações sociais presentes no ambiente escolar, construindo seu percurso ideológico de forma vivenciada, experimentada e articulada entre teorias e prática, melhorando assim a sua prática docente.
Segundo Nóvoa (2007) a formação não se constrói simplesmente por acumulação de conhecimentos ou de técnicas, mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas.
Percebemos na investigação, que a professora Sônia demonstra todo conhecimento do universo acadêmico em que atua, inteirando-se das mudanças pelas quais a sociedade contemporânea passa, tendo um olhar não somente contemplativo sobre as circunstâncias, mas atuante e reflexivo diante do novo contexto.
É perceptível no relato da professora suas angústias sobre as dificuldades enfrentadas não só por ela, mas por todos os professores bem como os enfrentamentos e os sucessos obtidos por meio de um trabalho proximal, empático, teórico, prático e sua preocupação constante em agregar novos conhecimentos a fim de melhorar sempre sua prática pedagógica.
Desta forma, com a elucidação dos questionamentos feitos à professora Sônia a respeito sobre a formação continuada docente, parecer sobre a inclusão no sistema escolar, sonhos, frustrações e anseios em relação à temática abordada e das assertivas opinativas ora argumentativas ora explicativas pela entrevistada, mostramos, de forma explícita, o diálogo travado entre entrevistador e entrevistada, e a leitura e reflexão resultantes se caracterizam como co-construção dos referidos interlocutores, na produção do “efeito de real”, construído e criando a ilusão de poder expressar a realidade com um grau máximo de fidelidade, ponto de vista que não compartilhamos por optarmos por uma perspectiva que mantém a distância entre a situação empírica e a situação discursiva.

REFERÊNCIAS

ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cortez, 2003.
AMIRALIAN, Maria L. T. Desmistificando a inclusão. Revista Psicopedagogia, 22(67), p. 59- 66, 2005.
CUNHA, Maria Isabel da. O bom professor e sua prática. Campinas, SP: Papirus, 1989.

DAVIS, Cláudia; OLIVEIRA, Zilma de. Psicologia na Educação. 2.ed. São Paulo: Cortez, 1994.

DECLARAÇÃO DE SALAMANCA. 1994. Disponível em: . Acesso em: 30.05.2021.
FERREIRA, Naura Syria Carapeto. Gestão Democrática da educação: atuais tendências, novos desafios. São Paulo: Cortez, 1998.
GRACIANO, M.I.G.; FIGUEIRA, E. A deficiência: aspectos sociais da reabilitação e trabalho interdisciplinar. Temas sobre desenvolvimento, v.9, n.49, p.40-51, 2000.
MELLO, Reynaldo Irapuã Camargo (organização). Pesquisa e Formação de Professores. Cruz Alta: Unicruz, 2002. 137

NÓVOA, António. Vidas de Professores. 2. ed. – Porto, Portugal: Porto, 2007. 215p

PIMENTA, Selma Garrido (org.). Saberes pedagógicos e atividade docente. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

REY, F.G. & MARTINEZ, A.M. (1989). La personalidad: su educación y desarrollo La Habana: Editorial Pueblo y Educación.

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. 12. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. 325p.

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1 Comente

Moisés da Silva
Moisés da Silva 25 de setembro de 2021 - 21:46

Muito honrado e contente por ter meu artigo científico publicado pela conceituadíssima Revista Científica Imperium. Esse artigo originou-se de uma longa entrevista com a professora de História e Arte Sônia Rosa, do Colégio Stella Maris, Sistema Anglo de Ensino – Andradina, Estado de São Paulo, sobre sua visão a respeito de suas práticas e anseios pedagógicos na contemporaneidade. Vale a pena conferir! Uma abordagem temática pertinente a todos os professores bem como mudanças de paradigmas face às dificuldades encontradas no dia a dia das salas de aula.

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