Casa Artigos Científicos SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO: ORIGEM E A IMPORTÂNCIA

SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO: ORIGEM E A IMPORTÂNCIA

por Angelo Ribeiro Froes

ROBERTO DOS SANTOS

Resumo:
A Sociologia da Religião analisa as religiões como fenômenos sociais, procurando desvendar a influência dela na vida do indivíduo e da comunidade. Os estudos fundamentam-se na dimensão social da religião e na dimensão religiosa da sociedade. A Sociologia da Religião tem como principais nomes Emile Durkheim, Karl Marx, Ernst Troeltsch, Max Weber e Peter Berger.
Neste curso você conhecerá melhor as religiões, os fenômenos sociais e as abordagens atreladas a elas. A Sociologia da Religião analisa as religiões como fenômenos sociais, procurando desvendar a influência dela na vida do indivíduo e da comunidade. Os estudos fundamentam-se na dimensão social da religião e na dimensão religiosa da sociedade.

Palavras-chave: Sociologia. Religião. Fenômenos Sociais. Sociedade.

Abstract:
The Sociology of Religion analyzes religions as social phenomena, trying to unravel its influence in the life of the individual and the community. The studies are based on the social dimension of religion and the religious dimension of society. Sociology of Religion has as its main names Emile Durkheim, Karl Marx, Ernst Troeltsch, Max Weber and Peter Berger. In this course you will be better acquainted with religions, social phenomena and the approaches linked to them. The Sociology of Religion analyzes religions as social phenomena, trying to unravel its influence in the life of the individual and the community. The studies are based on the social dimension of religion and the religious dimension of society.

Keywords: Sociology, religion, social phenomena, society.

1. INTRODUÇÃO

A pesquisa em Sociologia da Religião se dá de forma empírica, através de autores clássicos como Émile Durkheim, Max Weber, Georg Simmel, e outros autores que colaboram pra essa análise como Sigmund Freud e William James. Vou me concentrar a falar um pouco sobre os Clássicos. Lembrando que, a orientação pessoal de cada sociólogo emerge de modo claro por meio das próprias definições de religião.
Émile Durkheim e as Formas Religiosas – Durkheim considera a religião como parte essencial da vida social, em sua própria obra “As formas elementares da vida religiosa” ele diz: “Nosso objetivo, neste livro, é estudar a religião mais primitiva e simples atualmente conhecida, fazer a análise dela, tentar sua explicação.” Para o sociólogo, a ciência não substitui a religião. Há algo eterno na Religião. Em toda obra ele visa a busca da origem da vida social, e tem como pesquisa o Totemismo de povos primitivos na Austrália. Em busca do universo ideológico do fenômeno religioso ele consegue articular as representações de tempo, espaço, morte através da instituição nas quais ele acreditava ter uma consciência coletiva. Conclui a obra entendendo que a religião é algo eminentemente social, as representações religiosas são representações coletivas ( Ritos ) nesse sentido a religião é um produto do coletivo.
Max Weber e a Religião – Um dos principais motivos de sua pesquisa foi captar as relações entre economia e religião. Ele reconhece o capitalismo como uma força na realidade social moderna, mas evita atribuir a uma só matriz a origem das dinâmicas sociais (divergindo de Marx). Nesse sentido ele trabalha com o econômico e o religioso em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Nessa obra ele analisa a origem de uma consciência econômica condicionada a um conteúdo da fé religiosa. Tem como recorte o caráter predominante protestante calvinista, que em sua análise pregava a acumulação de capital em um objetivo existencial, e que o sucesso na profissão é um sinal de predileção divina.

2. O SÉCULO XIX E A TEORIZAÇÃO DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO

Para compreendermos o surgimento de uma disciplina acadêmica dedicada, especificamente, a entender e explicar os processos sociais que envolvem as religiões, precisamos voltar às origens da sociologia. A sociologia é uma ciência tipicamente moderna, produto das grandes transformações sociopolíticas, culturais e econômicas ocorridas na Europa nos séculos XVI e XVII. O longo processo histórico de constituição da Modernidade culmina no século XIX com a instauração de um novo modelo de sociedade, regido por valores burgueses, por arranjos sociais e políticos condizentes com as novas formas de organização do sistema produtivo e, consequentemente, das relações sociais. A ascensão de uma nova classe social – a burguesia – tem como resultado a perda de poder dos monarcas e senhores feudais. O desenvolvimento das cidades, acelerado pela Revolução Industrial, transforma camponeses e artesãos em operários. A forma capitalista de produzir os bens necessários à vida substitui a economia fundada nas relações familiares.
No campo religioso, as alterações são também profundas, tanto pelas transformações ocorridas no âmbito das crenças quanto no das instituições. A dissolução do feudalismo marca o enfraquecimento progressivo do poder das igrejas cristãs.
No contexto conturbado de mudanças estruturais, dá-se paralelamente o processo de secularização da cultura e da sociedade. Reorganizam-se, em um processo bastante complexo, as relações entre religião e sociedade. Uma nova visão de mundo e da condição humana na história exprime uma profunda mudança das mentalidades. A descoberta de novos territórios e a possibilidade de difusão rápida e ampla das ideias, pela criação da imprensa, de maneira até então inimaginável, tornam acessível o conhecimento e transformam “o mundo” em lugar de intervenção A natureza deixa de ser um dado imutável, matriz da ordem social e moral, e torna-se, como a sociedade, objeto da ação humana. A história é o resultado dessa ação e não mais um projeto divino, obedecendo a leis eternas a que os seres humanos devem submeter-se. Ao contrário, o racionalismo das luzes empresta à razão humana o poder de atuar sobre o curso da história. A ciência propõe-se a estabelecer regularidades e leis que indicam o ilimitado progresso para o qual a humanidade agora caminha. Se a autoridade procedia a tradição, agora a inovação e a mudança tornam-se valores maiores e imperativos da ação e do pensamento. A visão de mundo religiosa, informada pelo princípio da autoridade e pelo pensamento mítico, é substituída pela razão iluminada pela ciência.
As transformações ocorridas no campo político, graças à Revolução Francesa, e na economia, graças às inovações tecnológicas que criam uma nova divisão de trabalho e novas classes sociais, fundam as bases de possibilidade para profundas alterações filosóficas. Surge uma das mais importantes criações da Modernidade: a figura do “individuo”, sujeito de direitos, “dono do próprio destino” dentro de uma concepção liberal de humanidade, extensiva e abstrata. Constitui-se o Estado moderno. Filósofos e pensadores da época criticam o principio de autoridade como fonte do conhecimento. O racionalismo cartesiano propõe uma interpretação do mundo que tem como base o indivíduo. Instala-se o reino da razão, informado pelas regras do método, oposto as verdades cujas bases são a tradição e a revelação. O impacto dessas ideias sobre a religião é enorme e se faz sentir em vários níveis.
Se são grandes as pedras econômicas sofridas pelas instituições religiosas, que tem territórios e outras propriedades expropriadas, a perda maior se dá nos níveis ideológico e politico.

O tempo da enciclopédia – “das ciências, das artes e dos ofícios”. E “dos esforços do espirito humano em todos os seus gêneros” – substitui o universo da “Summa”, em que Deus era o principio e o fim, e cujos selos a teologia guardava. A revolução da sociedade que sacode o Ocidente cristão de 1775 a 1818 não é senão urna peripécia, um entusiasmo da historia diante desta revolução da consciência e inteligência. (Poulat, É. Liberté, laïcité, p. 391).

O sentido religioso da vida e da sociedade dá lugar a uma visão racionalizada e secularizada. Afirmam-se a liberdade de pensamento e a autonomia da consciência. Trata-se de uma verdadeira revolução do pensamento, “a emergência de novas formas de pensar, uma reestruturação das grandes evidencias que, durante muito tempo, haviam animado a sociedade ocidental e fundado sua unidade cultural” (POULAT, 1987). O pensamento mítico-religioso, em um processo lento, mas inexorável, é pouco a pouco substituído pelo calculo racional do pensamento das luzes. Octavio Ianni fala do “destino trágico” dos seres humanos obrigados a confrontar-se, na modernidade, com si próprios, prescindindo de Deus (IANNI, 1989, p. 20).
Quanto à sociologia, podemos dizer que ela é produto desse processo histórico que cria a Modernidade como realidade e como mito e, ao mesmo tempo, ajuda a pensar, explicar e compreender a nova sociedade que se está criando. As questões e problemas suscitados por mudanças de tamanha amplitude necessitam de respostas. A Europa é sacudida pela explosão violenta das revoltas operárias e pelas reivindicações das mulheres por direitos políticos e sociais. Apropriando-se de procedimentos das ciências naturais e da física, as ciências sociais criam seu próprio instrumental analítico para dar conta do estabelecimento de um novo modo de produção e de novas relações sociais.
O recurso ao sobrenatural já não é possível, nesse “mundo desencantado” do fim do século XVIII, início do XIX. Nesse conturbado contexto político-ideológico e social nasce à sociologia.
Em seu desenvolvimento posterior, até nossos dias, a sociologia mantém seu potencial crítico em relação aos processos sociais e interroga a realização das promessas da Modernidade. Anthony Giddens (2001) reconhece no desenvolvimento contemporâneo das ciências sociais uma enorme pluralidade temática e de perspectivas teóricas. No campo específico da sociologia, na qual Giddens vê grandes mudanças ao longo dos últimos trinta anos, os debates atualmente se dão em torno de temas como: pós-modernismo, sociedade pós-industrial e da informação, globalização, transformação da vida cotidiana, gênero, sexualidade, a natureza mutável do trabalho e da família, a “subclasse” e a etnia. Segundo Giddens, o pensamento sociológico contribui hoje para a compreensão das forças sociais que vêm transformando a vida social, contemporânea, episódica, fragmentada e marcada por novas incertezas.

3. A SOCIOLOGIA APLICADA A RELIGIÃO

Desde o seu início, a sociologia interessa-se pela religião. Poder-se-ia mesmo dizer que, no limite, nasce como sociologia da religião, na medida em que, ao se propor entender a sociedade de maneira científica, a sociologia confronta-se imediatamente com o fato religioso. Os fundadores da sociologia – Marx, Durkheim e Weber – ocuparam-se, em graus diversos e de maneiras diferentes, da religião. Não para discutir a veracidade de suas afirmações teológicas, mas porque entendê-la era fundamental para compreender a sociedade moderna. Dá-se, então, uma profunda ruptura. A fragmentação da ciência e a constituição de campos especializados do saber abalam a pretensão totalizante da filosofia e da teologia. A ciência toma a religião como seu objeto. Ela é “confinada” a um campo. Torna-se objeto da investigação de um campo do conhecimento alheio e “liberto” da religião: as ciências sociais.
Isso só é possível na medida em que a sociedade moderna abandona as referências religiosas para pensar-se como histórica, transitória, em constante mutação. Dogmas e verdades eternas passam a ser questionáveis.
A modernidade é, neste sentido, irreligiosa. O conflito com a religião é parte inevitável da história de sua emergência e da constituição da sociologia. O saber havia sido controlado pela religião por muito tempo. Conhecia-se o que a religião permitia. Durante todo o período medieval, o cristianismo dominara o Ocidente e controlara a vida social, econômica e política das comunidades, pela imposição de normas de conduta e pelo domínio sobre a criação artística, assim como sobre a elaboração do saber. O episódio Galileu é, neste sentido, emblemático do poder da Igreja à época. Agora a religião é submetida ao crivo da ciência. Não é mais necessário ser religioso para falar de religião. O estudo da religião desvincula-se da fé. É possível “entender de religião” sem ter uma adesão religiosa. Tal mudança de registro intelectual contradiz representações tidas como únicas definitivas e ortodoxas. A ciência positivista e iluminista do século XIX subtrai-se à grande síntese clássica e aos ensinamentos da autoridade católica, para proclamação de uma verdade eterna, mas da confrontação com os parâmetros científicos de tratamento do objeto. A religião deve ser tratada como “coisa”, diz Durkheim, isto é, como um fato social, sujeito às transformações que lhe impõem os processos sociais.
A sociologia se propõe, assim, diferentemente da teologia e da filosofia, a entender as práticas sociais e considera a religião enquanto um dos componentes dessas práticas. Busca compreender e explicar ritos e crenças em seus efeitos sobre a maneira como a sociedade se organiza, produz e reproduz como sociedade. Não busca nem se interroga sobre uma suposta “essência religiosa”. Quer saber menos o que é a religião, e mais como as comunidades praticam as religiões. Não se pergunta pela verdade da fé, mas busca saber em que medida o fato de uma comunidade adotar determinadas crenças religiosas, praticar certos ritos e encontrar-se para praticá-los altera, influi, produz efeitos na maneira como esse grupo se organiza, na maneira como a cultura se constrói, na forma como entende a política e na maneira como se elaboram suas explicações da vida e da morte, sua “visão de mundo”, diria Weber.
Em outras palavras, o objeto da sociologia são as crenças e práticas religiosas tomadas enquanto fatos sociais explicáveis por outros gatos sociais e determinados – ou, pelo menos, por eles condicionados. Assim, o discurso religioso, produzido seja pelos/as mesmos/as crentes, seja pela instituição reguladora das crenças, é tomado pela sociologia como objeto de análise e não como explicação das crenças. A auto explicação da fé dada pelos crentes, sejam fiéis, sejam funcionários, deve ser submetida ao rigor da análise para que se possa explicar, do ponto de vista sociológico, essa adesão religiosa.

4. TAREFAS DA SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO

Negativamente, podemos dizer que não é tarefa da sociologia ocupar-se da religião “em si mesma”. O que está em questão para o sociólogo da religião são as relações entre religião e processos sociais. Neste sentido, uma das tarefas definidoras do trabalho da sociologia da religião é identificar as origens e as funções sociais dos mitos, das doutrinas e dos dogmas religiosos. Essa tarefa realiza-se em três dimensões. A primeira delas é a compreensão do papel da religião nas diferentes sociedades e culturas. A segunda, a análise do significado e do impacto da presença e da força das religiões no correr da história humana. E, finalmente, a identificação das forças sociais que modelam as religiões, por um lado, e o reconhecimento do papel das religiões na transformação dos processos sociais, por outro.
A realização dessas tarefas pelo sociólogo, como em qualquer pesquisa de caráter científico, é condicionada por sua, inserção social e cultural, pela tradição acadêmica à qual se filia e por questões relativas a seus vínculos institucionais, acadêmicos e religiosos, caso existam. A questão do necessário distanciamento do cientista em relação ao seu objeto é particularmente delicada no caso do estudo das religiões. Alguma das propostas para solucionar o problema da implicação pessoal de quem estuda religião vão desde o “ateísmo metodológico” à necessidade de “empatia” pelo objeto. Uma outra proposta metodológica no tratamento científico das religiões aponta para a necessidade de se explicitar as próprias convicções em relação à religião e eventuais laços com igrejas, templos, terreiros ou quaisquer outras formas institucionalizadas da religião.

5. OS TEÓRICOS DA SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO

Para Marx, Weber e Durkheim, a religião apresentou-se como um problema a ser analisado para se entender a sociedade. Abordaram diferentemente a questão da possibilidade da ordem social nas sociedades modernas, cujas bases são a legitimidade e a extensão de direitos e interesses individuais. Como pode a sociedade manter-se coesa, se o seu centro passou da comunidade ao indivíduo? Em seu famoso livro Comunidade e sociedade, Tonnies havia proposto a forma comunitária como própria das sociedades tradicionais e a societária como a forma organizacional especificamente moderna. Ora, se a religião organizava os laços comunitários e garantia a coesão, agora é em torno da figura do indivíduo que os laços sociais se tecem. O que acontece, então, com a religião? E com a sociedade que prescinde dela? Nossos três autores concordam em que as religiões são importantes elementos na construção dos laços sociais. Mas diferem na consideração do quanto o são e de que forma.
Marx (1818-1883) precede Durkheim e Weber em, pelo menos, uma geração e não é, propriamente falando, um sociólogo da religião. Para Marx, a religião é uma realidade histórica dependente do desenvolvimento das condições materiais de vida e da consciência dos indivíduos. Diferentemente de Durkheim e Weber, que entendem a religião como permanente, ainda que não eterna, para Marx a religião desaparecerá, dada a evolução dos processos históricos e das consciências individuais. As religiões dependem, em suas formas e em sua natureza mesma, das relações sociais, especialmente das relações econômicas, fundamentais em toda análise sociológica. Na verdade, Marx entende a religião a partir dos “modos de produção”, isto é, da maneira como se produzem os bens necessários à vida, porque estes constituem, em última instância, o elemento explicativo da sociedade.
A economia explica a religião, como explica a sociedade. A religião, como alienação e como ideologia, oculta o real, escamoteia as relações de exploração e de dominação social e os conflitos políticos, e impede a autodeterminação. Reflexo da condição alienada da humanidade nas sociedades capitalistas, as religiões serão superadas à medida que o processo de “desalienação” ocorrer pela instauração de um novo modo de produção e de novas relações sociais – o socialismo. Trata-se da emergência da consciência liberta da necessidade da religião. Ao contrário do que muitas vezes se pensa Marx não combateu a religião. Isso não era necessário, uma vez que ela desapareceria pelo próprio desenvolvimento do processo histórico.
Durkheim (1858-1917), em sua obra As formas elementares da vida religiosa, parte da afirmação metodológica de que a primeira tarefa da pesquisa é definir seu objeto de estudo. Mas como definir um objeto tão complexo quanto a religião? Como é possível encontrar um denominador comum que permita construir uma definição adequada para todas as religiões atuais é resultado de um processo de mutação histórica muito grande que impede o reconhecimento de seus traços essenciais. Daí sua busca pela forma elementar da religião. Só em sua forma mais simples será possível encontrar os elementos que lhe servem de fundamento, sem os quais não podem existir. E é pesquisando as sociedades tribais australianas que Durkheim encontrará, na religião totêmica, as formas mais primitivas que lhe permitirão definir sociologicamente a religião. Dois elementos compõem essa definição: religiões são compostas de símbolos, ritos e crenças, comuns a uma coletividade determinada. A dimensão comunitária, a noção de “igreja”, é, pois, inerente à sua definição de religião.
O interesse de Durkheim pela religião, porém, deve-se à sua compreensão da sociedade enquanto realidade moral que se exprime sob a forma religiosa. “Estudar a religião é, pois, remontar às fontes do laço social, para pensar melhor a refundação possível desse laço em uma sociedade laicizada”.(HERVIEU-LÉGER, 2001, p. 155). Portanto, religião é uma peça-chave em sua compreensão das condições de manutenção da coesão social nas sociedades modernas. Para ele, a religião é a celebração mesma da possibilidade humana de organizar-se coletivamente. Por isso, nunca desaparecerá. É a condição em si de possibilidade da existência da sociedade. Tal concepção significa, no plano empírico, que mesmo que formas religiosas tradicionais desapareçam, os grupos humanos serão sempre capazes de encontrar novos símbolos de solidariedade, apropriados ao novo grau de desenvolvimento da sociedade.
No plano teórico, depreende-se que a religião terá sempre uma função social a cumprir, oque lhe garante a perenidade, ainda que sob formas históricas as mais variadas.
Weber (1864-1920) é, sem dúvida, o mais rico dos três autores para o estudo das religiões. Uma de suas contribuições mais instigantes para o estudo da religião é a afirmação de que tem a ver com “o mundo aqui em baixo”. Ao contrário das suposições correntes e dos próprios discursos religiosos de que as religiões referem-se às “coisas do alto”, Weber as toma como referidas ao “agir no mundo”. Assim, mais do que um sistema de crenças, a religião é uma espécie particular do agir coletivo. Depositária de significados culturais permite interpretar a vida, construir uma identidade e dominar o próprio ambiente, tanto individual quanto coletivamente. Na base dessa proposição está sua compreensão da religião como uma esfera autônoma do agir social, capaz de influir sobre os processos históricos. Em consequência, Weber trabalha a relação religião-mundo como contingente e variável, dependente dos processos sociais, devendo ser examinada em sua especificidade histórica, social e cultural e tendendo a desenvolver-se em determinada direção. Quer dizer, dependendo do momento histórico, do contexto social e dos valores culturais vigentes, haverá configurações diversas do religioso.
Weber preocupa-se ainda com um problema sociológico específico: a influência das concepções de mundo sobre as organizações sociais e os comportamentos individuais. Interroga as ideias, a cultura, os comportamentos motivados por valores. Explora a inter-relação entre as imagens religiosas do mundo e as possibilidades de mudança social. Tal compreensão está na base da exploração de sua tese exposta em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, considerada a obra mais importante do século XX no campo das ciências sociais. Nela, Weber trabalha as formas pelas quais concepções religiosas contidas no protestantismo ascético puritano contribuíram de maneira significativa para o advento do capitalismo. Não propõe o protestantismo como sua causa, como às vezes equivocadamente se pensa, mas fala dele como uma espécie de pré-condição psicológica para a instauração do agir econômica racional. As ideias calvinistas e puritanas formaram a base de valores que propiciaram o desenvolvimento do capitalismo, porque racionalizaram, organizaram o cotidiano.
“O protestantismo ascético produziu uma unidade inquebrantável e singular entre a ação racional referente a fins [Zweckrationalität] e a ação racional referente a valores [Wertrationalität]” (PIERUCCI, 1999, p. 205).
A incerteza da salvação, que só poderia ser garantida pelo sucesso material, que é a glória de Deus e a garantia da salvação, faz com que a vida cotidiana e o trabalho sejam organizados não para obter lucro e gozar daquilo que se ganha, mas para garantir a salvação. Essa organização racional do cotidiano e esse ascetismo constituem uma base para que o capitalismo possa se desenvolver. Weber propõe, assim, a existência de uma “afinidade eletiva” entra atitude religiosa e comportamento econômico capitalista.
Preocupado com a questão da Modernidade, Weber entende que a racionalização da religião teve um papel importante em sua emergência. Mas esse processo racionalizador não significa um “progresso”. Ele critica a moderna sociedade capitalista que nos encerrará na “gaiola de ferro” da racionalização excessiva e fria. Porém, ao contrário de Marx, a quem a crítica conduz à proposição revolucionária, Weber é um resignado. (MARIZ, 2003)
Um paradoxo percorre a obra weberiana: a força que ele coloca ao mesmo tempo nas intenções dos agentes, portanto, na subjetividade, nos comportamentos individuais motivados por valores, e no sentido histórico das ações, na objetividade da estrutura social, na dinâmica das instituições. Neste sentido, distingue-se de Marx e de Durkhei m. Como também se distingue por reconhecer a possibilidade de que as religiões tenham um papel histórico na mudança social. “Em suas análises históricas de diferentes grupos e movi mentos religiosos se pergunta em que circunstâncias as motivações religiosas levam a rupturas com o modo de vida e sociedade dominantes e em que outras apenas os reforçam” (MARIZ, 2003, p. 86).
Resta ainda lembrar o lugar reservado por esse autor à questão do poder religioso. Ele inscreve sua sociologia da religião na sociologia da dominação.(HERVIEU-LÉGER, 2001, p. 72).
A concessão de bens espirituais pode constituir-se como o fundamento de uma dominação espiritual sobre os grupos. Ao construir os tipos-ideais de autoridade religiosa, Weber introduz a questão, tão bem retomada por Bourdieu, da legitimidade do poder social.
Ainda que de formas diferentes. E, às vezes, até opostas, os três fundadores da sociologia trataram da religião reconhecendo seu lugar na vida dos grupos humanos, indicando sua dinâmica interna e sua eventual contribuição aos processos de mudança social. São, até hoje, uma referência necessária.

6. A FUNDAMENTAÇÃO FEMINISTA CRÍTICA DA SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO

Pode-se afirmar que, no século XX, o feminismo alterou profundamente as práticas sociais e políticas, os padrões culturais correntes e as formas do conheci- mento humano. Entre os campos que sofreram de maneira intensa o impacto das ideias feministas está o religioso, seja pelas mudanças provocadas nas práticas religiosas das mulheres, seja pela influência sobre o desenvolvimento de um novo discurso – a teologia feminista. Os efeitos da crítica feminista às religiões, especialmente ao cristianismo no Ocidente e ao islã, no Oriente, foram dos mais contraditórios: do abandono de qualquer fé religiosa pelas mulheres à criação de espaços feministas de espiritualidade de vários tipos, expressando uma enorme criatividade, inclusive com a reinterpretação de textos tidos por sagrados, como a Bíblia e o Corão.
Na área das ciências sociais, porém, o desenvolvimento de uma análise feminista das religiões que tomasse em conta as diferentes formas pelas quais as relações entre os sexos moldam práticas, representações e discursos religiosos tem sido bem mais lento. É como se o campo acadêmico refletisse a resistência das religiões em integrar as mulheres. De um lado, para o feminismo laico – para nomeá-lo de alguma maneira -, é como se, lembrando Marx, a crítica feminista da religião já estivesse feita, o anátema lançado, e nada mais houvesse a tratar. Da parte da abordagem sociológica das religiões, corno se o feminismo, enquanto proposta de análise, não existisse. Parece academicamente impróprio interrogar a realidade religiosa do ponto de vista das diferenças colocadas pelas relações sociais estabelecidas entre os sexos.
No entanto, nas últimas décadas não só a crítica interna iniciada em relação ao cristianismo estendeu-se a outras religiões não-ocidentais, como também os estudos acadêmicos feministas das religiões desenvolveram-se para além da teologia. Já se pode encontrar um expressivo número de análises feministas da religião, em diferentes campos disciplinares: sociologia, antropologia, história, psicologia, Filosofia. A tão falada recomposição do campo religioso passa também, mas não só, e não sei se principalmente, pela maneira como as mulheres lidam com sua fé religiosa, assim como pela maneira como as religiões lidam com seu público feminino.
Em um primeiro momento, a crítica das religiões foi feita no plano político e militante. As religiões foram tratadas como instrumentos dos mais eficazes para o controle das mulheres e para a manutenção de sua subordinação social e religiosa. Posteriormente, o desenvolvimento de pesquisas de caráter acadêmico, analíticas e com bases empíricas aplicou ao domínio das religiões conceitos e métodos de pesquisa feministas. Foi possível, assim, avalia r a complexidade das relações existentes no interior do campo religioso. Desvendaram-se os laços ambíguos e contraditórios das mulheres com as religiões e destas com as mulheres, no interior das organizações religiosas. A observação empírica mostrou as religiões como espaços sociais complexos, portadores de contradições, que não funcionam sempre e em todas as sociedades como forças conservadoras. Dadas certas circunstâncias, elas podem funcionar como forças mobilizadoras, levando as mulheres a resistirem ao seu poder disciplinador.
Assim como cientistas sociais passaram a compreender e salientar certa autonomia das motivações religiosas para a ação política e a mudança social, assim também feministas.

Começaram a rever sua conclusão de que a religião contribuía inevitavelmente para a subordinação das mulheres. O movimento de espiritualidade das mulheres e as teologias da libertação feministas sugeriam que as ideias religiosas retrabalhadas podiam ser mais uma fonte de empoderamento das mulheres do que de sua subordinação. Entretanto, o consenso sobre a mutabilidade das religiões e seu papel potencialmente liberador é consideravelmente menos desenvolvido entre feministas do que entre estudantes de religião e política. Grande parte da teoria feminista ainda duvida da capacidade de um movimento iniciado em uma igreja dominada por homens emancipar as mulheres. (DROGUS, 1997, p. 1-11).

Na avaliação de Rita Gross, apesar do domínio histórico dos homens no campo dos estudos da religião, as estudiosas feministas foram bem-sucedidas em seus esforços para estabelecer uma presença respeitada e influente.

Assim como a prática religiosa foi transformada pelas feministas, também o fora m os estudos acadêmicos da religião. Todas as áreas dentro dessa disciplina fora m afetadas pelos métodos feministas, dos estudos bíblicos ao estudo com parado das religiões. (GROSS, 1996, p. 45).

Levantando rapidamente a história dessa área de estudos, Gross cita o primeiro encontro de teólogas e especialistas em estudos das religiões, em junho de 1971, nos Estados Unidos. Dessa reunião saiu uma serie de propostas com o objetivo de estabelecer uma agenda específica – painéis, conferências, papers – que tratasse da temática “mulheres e religião”, na American Academy of Religion (AAR) e na Society for Biblical Literature (SBL): duas das mais influentes associações profissionais nesse campo de estudos. Como resultado da atuação política dessas acadêmicas, uma mulher, Christine Dowing, é eleita presidente da AAR. Estabelece-se uma rede de contatos entre essas acadêmicas, com efeitos positivos sobre o desenvolvimento de suas carreiras, na teologia ou nos estudos de religião.
Ainda como resultado desses esforços, vários periódicos acadêmicos são criados como “instrumentos críticos para o estudo feminista das religiões” (GROSS, 1996, p. 49).
Aparecem também as primeiras obras de maior fôlego sobre a temática em questão: Womanspirit rising: a feminist reader in religion, de Carol Christ e Judith Plaskow, “provavelmente o livro de maior influência e mais largamente utilizado no campo dos estudos feministas da religião” (GROSS, 1996, p. 48). Em 1989 aparece Unspoken world: women’s religious lives, de Nancy Auer Falk e Rita Gross (FALK, 1989). Vários outros seguem, especialmente na década de 1990-2000, alargando o horizonte das temáticas tratadas e abrindo para o estudo comparado das religiões, incluindo as orientais, africanas e outras não institucionalizadas, do tipo nova era. No Canadá, em 1995, é publicada a coletânea multidisciplinar: Femmes et religions, sob a direção da socióloga Denise Veillette. Na apresentação do livro, os questionamentos que o originaram: Porque a hierarquização social dos sexos? Porque a ocultação das mulheres? Porque a apropriação masculina do sagrado? Como explicar que, historicamente, um gênero, o masculino, tenha podido controlar os ritos e as práticas, os discursos e as crenças, bem como as representações de Deus, majoritariamente, para não dizer exclusivamente? (VEILLETTE, 1995, p. 1-40).
No campo específico da sociologia da religião, realiza-se na França, em 1980, o Colloque de l’Association Française de Sociologie de la Religion, com a temática geral: Oppression des femmes et religion, cujos anais, de difícil acesso, nunca chegaram a ser publicados. O objetivo desse colóquio é definido por Danièle Hervieu-Léger:

Tentar contribuir […] para a elucidação da lógica social que preside a estruturação dessas atitudes e desses comportamentos religiosos ditos “femininos”. Lógica social que a ideologia dominante – servida em primeiro lugar pelo discurso oficial das instituições religiosas – oculta e reforça, imputando tais atitudes e comportamentos à ordem eterna da natureza, identificada à vontade divina, e que define para a mulher uma vocação específica. (Hervieu-Léger, 1980, p. 1).

A explicação dada por Hervieu-Léger ao título escolhido para o colóquio – religião e opressão das mulheres – é reveladora do tipo de análise proposto:

Trata-se de uma tomada de posição metodológica [sublinhado no original] que engajava a problemática deste colóquio. Poder-se-ia ter proposto “As mulheres e a religião”; não fazê-lo era recusar a ideia de uma relação homogênea das mulheres com a religião, relação que procederia de uma suposta “natureza feminina”; era excluir a hipótese de uma religiosidade feminina inscrita em alguma parte […] na estrutura biopsíquica das mulheres; era romper com o pressuposto que toma como um fato da natureza o que nós tentamos compreender como fato social. (Hervieu-Léger, 1980, p. 1).

Esse tipo de abordagem teórico-metodológica permitiu interrogar as religiões do ponto de vista das relações sociais entre os sexos, ou de gênero. Algumas pesquisas empíricas foram dedicadas a dissecar as formas pela quais crenças, práticas e representações religiosas contribuem, seja para a reprodução da desigualdade entre mulheres e homens, seja para sua transformação. Em todos os campos de estudo das religiões, uma das questões fundamentais passou a ser a compreensão da maneira pela qual atividades simbólicas – crenças, ritos e discursos religiosos -, que parecem escapar à diferenciação colocada pelo gênero, são, na verdade, moldadas por sua ação. A preocupação de pesquisadoras femininas tornou-se, assim, mostrar como as religiões apresentam-se em uma realidade social e histórica, atravessadas e conformadas pelas relações de gênero. Suas pesquisas mostraram haver evidência sociológica de que mulheres e homens interpretam símbolos religiosos diferentemente, confirmando hipóteses que propõem o gênero como mediador da experiência religiosa.
Em outras palavras, mostraram que o gênero molda a experiência de ser e de tornar-se uma pessoa religiosa. (DROGUS, 1997, p. 11).
Uma área de especial interesse para as pesquisadoras feministas das religiões é o poder institucional e os efeitos sociais e políticos da implicação religiosa das mulheres. A crítica feminista à sociologia das organizações sociais ofereceu os elementos necessários à analise das instituições religiosas. Estudiosas das religiões mostraram a inadequação de se tratar as categorias utilizadas nas análises como supostamente neutras em termos de gênero. A maioria dos atuais estudos do poder religioso toma as categorias – Profeta, mago, sacerdote – no abstrato, nomeadas no masculino, sem explicitar a dominação religiosa dos homens, em grande parte, se não na maioria das organizações religiosas. Tal tratamento impede a percepção de elementos fundamentais para a análise da realidade das religiões. Nesse sentido, o caso dos estudos sobre o catolicismo é exemplar. Ao se constatar, sociologicamente, a estrutura da divisão do trabalho religioso entre clero e laicato, sem mencionar que esse clero é, de forma absoluta, masculino e celibatário, deixa se de compreender algo que é parte intrínseca da maneira como essa religião organiza-se institucionalmente e que tem efeitos sobre o discurso e a prática dessa religião, sobre a forma como ela atua na sociedade e, principalmente, sobre a vida de suas fiéis e das mulheres em geral. O uso genérico da categoria “clero” impede a análise das relações de poder que presidem a organização da Igreja Católica. O lugar diferenciado atribuído às mulheres e aos homens é ineludível em qualquer análise que se faça dessa religião, independentemente da explicitação de seu caráter feminista ou supostamente “neutro”. A consequência de uma suposta “neutralidade” é a da invisibilidade das mulheres na análise. O tratamento genérico dado a fiéis e agentes no campo religioso, assim como o tratamento gramatical no masculino, acaba por tornar as fiéis invisíveis nos relatos históricos, como nas análises sociológicas, e por subsumi-las no masculino genérico – isso, além de distorcer dados empíricos relativos às religiões.
Pesquisadoras feministas dedicaram-se, ainda, à crítica teórica, analisando autores clássicos da sociologia da religião. Bologh e Erickson apontam para o caráter sexista inerente ao pensamento deles, contaminando sua análise da religião. (BOLOGH, 1990). A rígida divisão entre sagrado e profano, na obra de Durkheim, apresentada como constitutiva das religiões e da sociedade, acaba por relegar as mulheres ao domínio profano/privado.
Apenas os homens são portadores do sagrado, protagonistas de crenças e ritos pelos quais novas relações e a própria sociedade são criadas. Já Max Weber associa os homens às religiões fundadas sobre o ascetismo racional que permite o surgimento da figura do líder, do herói. Às mulheres restam as religiões mágicas, que incorporam o erotismo e afastam da “ação no mundo”. Resultado: homens ativos, mulheres passivas, na religião e na sociedade.
De um ponto de vista estritamente sociológico, Linda Woodhead (2002) propõe uma “teoria geral” para o estudo da religião e do gênero. Segundo ela, o envolvimento das mulheres com a religião tem menos a ver com “falsa consciência” do que com as formas pelas quais as religiões oferecem espaços sociais para a articulação e, em alguns casos, para a realização dos desejos das mulheres. Explica que essa afirmação não nega que desejos não são “naturais”, mas modelados pelo contexto social do qual as religiões são parte. Ou que essa função pode ser cumprida por outros espaços sociais, e não pela religião. Ou ainda, “para que as religiões se tornem espaços nos quais as mulheres possam articular suas vidas e seus desejos, elas devem subvertê-las, apropriar-se delas ou reinterpretá-las”. Assim, para Woodhead, o grau de participação ou de falta de participação das mulheres nas religiões é dado pela disponibilidade ou não de espaços sociais que permitam a articulação de seus desejos, seus medos, suas vidas. A relação das religiões com a crescente diferenciação social das sociedades modernas e a consequente separação das esferas pública e privada será, então, o elemento explicativo do papel das religiões para as mulheres.

7. OS TEMAS ATUAIS DA SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO E OS ESTUDOS BRASILEIROS NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO

Não é tarefa simples fazer, de forma rápida e sintética, um balanço dos temas de que se tem ocupado a sociologia da religião contemporaneamente. Um bom parâmetro para se aquilatar a multiplicidade das questões que ocupam os cientistas sociais da religião são as conferências da Sociedade Internacional de Sociologia das Religiões/SISR. Realizadas a cada dois anos, essas reuniões organizam-se em torno de uma temática específica. Algumas das temáticas já abordadas são: a regulação do corpo e das concepções da natureza próprias a diferentes tradições religiosas, no cruzamento com problemáticas transversais, como ecologia, desenvolvimento da ciência; etnias, coexistência e choque cultural no contexto das migrações; aceleração dos processos de mudança e a dinâmica da transmissão religiosa às novas gerações de crentes.
Além dessas, outras questões aparecem como objeto da reflexão sociológica. Vamos nos ater a algumas delas. Há o interesse suscitado pela dinâmica de individualização do crer e a desinstitucionalização religiosa. Trata-se de buscar compreender e analisar as mudanças ocorridas no campo religioso contemporâneo para encontrar as novas formas de adesão religiosa. Nesse contexto, voltam à discussão temas como a secularização e a própria definição de religião.
Um outro tema que tem sido objeto de discussão é o dos chamados “fundamentalismos”. Ainda que sua origem protestante seja lembrada, seu uso alargou-se para designar posições políticas e ideológicas consideradas não condizentes com propostas mais liberais, no inferior do próprio campo religioso, como no campo da ciência, especialmente na área da biotecnologia e da genética. O debate sobre os fundamentalismos fez voltar à cena a questão das relações entre organizações religiosos e Estados nacionais, no contexto das democracias ocidentais, especialmente quando estão em jogo os direitos das mulheres. Nesse contexto, as discussões em torno da separação legal Igreja-Estado e da problemática da laicidade retornam à cena.
Também o que se convencionou chamar “novos movimentos religiosos”, mesmo alguns deles remetendo a práticas, rituais e crenças antigas, tem sido objeto de inúmeras pesquisas. O termo designa, de maneira geral, uma realidade bastante diversa, que inclui desde movimentos do tipo nova era até grupos de cura, religiões devedoras de tradições orientais e outros.
Já para os estudos sobre a religião no Brasil, no campo das ciências sociais, dois balanços foram publicados recentemente (Pierucci, 1970-1995, p. 237-286). Ambos reconhecem uma predominância dos estudos sobre o catolicismo e, em boa medida, sobre as religiões afro-brasileiras. A sociologia do catolicismo brasileiro, no entanto, só pode ser a sociologia do declínio dessa religião e o questionamento sobre os rearranjos do campo religioso, em uma sociedade crescentemente secularizada. Paula Montero, tentando “compreender representações de sociedade e, em particular, da cultura brasileira, implícitas no modo como os pesquisadores recortam e analisam os fenômenos religiosos contemporâneos”, constrói sua análise da bibliografia selecionada em torno de alguns temas: o papel do catolicismo na consolidação de uma sociedade democrática e a questão do catolicismo “popular”; o problema da identidade e do “sincretismo” nos textos sobre religião afro-brasileiras; a problemática da modernização da sociedade brasileira e das mudanças culturais, associada ao estudo da conversão para o protestantismo pentecostal. A autora finaliza esse balanço apontando para o desafio teórico que o crescimento do neopentecostalismo coloca para análise do campo religioso brasileiro, desafio ainda não respondido, em sua visão.
REFERÊNCIAS

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PIERUCCI, Antônio Flávio. Sociologia da religião – Área impuramente acadêmica. In: MICELI, Sergio (org.). O que ler na ciência social brasileira. São Paulo/Brasília: Sumaré, ANPOCS/CAPES, p. 237-286, v. 1 Antropologia, 1999

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